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por Ricardo Sennes e Alexandre de Freitas Barbosa

Esse artigo busca fazer um rápido balanço das relações econômicas do Brasil com seus principais parceiros e é uma síntese dos vários artigos mensais assinados pela Prospectiva Consultoria no Valor , desde setembro de 2004.

Alguns pontos sobressaem-se das análises. O primeiro é que a economia brasileira, em especial após a desvalorização de 1999, ampliou de forma consistente seu comércio exterior. Mas isso ocorreu basicamente pelo aumento expressivo das exportações e, em bem menor medida, pelo aumento de investimentos externos. Essa característica tem diferenciado de forma importante o processo de internacionalização do Brasil frente a economias como Índia, China e México.

Segundo aspecto é o fato de o Brasil ter mantido e ampliado a sua condição de pequeno global-trader, ou seja, segue participando marginalmente do fluxo do comércio global, mas com um comércio bastante diversificado no destino das exportações e ampliação expressiva das trocas com mercados não-tradicionais.

Terceiro elemento é a relativa rigidez no perfil de nosso comércio exterior, em particular com os mercados tradicionais. Continua válida a máxima de que o Brasil exporta bens com maior valor agregado aos países de menor desenvolvimento relativo, com destaque para a América Latina, e produtos com menor valor agregado para os países mais desenvolvidos, sendo os EUA uma exceção por ocupar uma condição híbrida nesses termos.

Finalmente, o Brasil segue relativamente marginalizado dos fluxos comerciais intrafirma, apresentando apenas exceções pontuais, como no caso da indústria automobilística. Essa característica tem relação direta com o padrão dominante do investimento externo recente no país e o baixíssimo investimento externo brasileiro.

Essas conclusões sugerem a necessidade de análise mais detalhada acerca da estratégia brasileira de inserção externa, para detectar nossos problemas estruturais de competitividade.

Em linhas gerais, podemos definir cinco padrões geográficos de inserção externa brasileira, que variam muito, dependendo da estrutura econômica dos parceiros e da forma com que se dá o entrelaçamento comercial e produtivo.

Pretende-se apenas apresentar os contornos gerais de nossa inserção externa, para traçar hipóteses que devem ser completadas com análises setoriais.

Se por um lado Estados Unidos e União Européia representam cerca de 46% das nossas exportações e metade do superávit comercial obtido pelo país em 2004, por outro as exportações sul-americanas, excetuando o Mercosul, e para a China e a África, são as que têm crescido mais rápido no período pós-99.

Observa-se que os padrões de inserção externa do Brasil com a UE e os países asiáticos são semelhantes em vários aspectos. As exportações brasileiras para estes mercados concentram-se no agribusiness e nos minérios, ou seja, bens cujos preços internacionais oscilam muito ou se situam no início da cadeia produtiva e se destacam pelo baixo valor agregado.

A diferença está basicamente em dois fatos: em primeiro lugar, o dinamismo de alguns mercados asiáticos, especialmente o chinês, permitiu a expansão quantitativa das exportações brasileiras no período 1999-2003, mas não houve expressiva diversificação da pauta.

Paralelamente, o perfil das nossas importações da China foi se tornando mais intensivo em tecnologia, “roubando” parte do mercado então controlado pelas economias avançadas. A China, que ocupava a 9ª posição como fornecedor brasileiro de equipamentos e componentes eletrônicos em 1998, torna-se líder no mercado nacional em 2004, à frente de EUA, Coréia, Japão e Alemanha.

Em segundo lugar, apesar de pouco expressivo, o fluxo de exportações industriais do Brasil para a UE revela-se importante para alguns setores – tais como calçados, papel e máquinas – o que não se observa no padrão asiático, onde a nossa pauta chega ao limite máximo da concentração em commodities. O caso coreano é típico: quase 90% das exportações para este país estão vinculadas ao setor agrícola e mineral ou a produtos industriais semi-elaborados.

A peculiaridade do padrão de inserção externa da economia brasileira com os EUA transparece na intensidade das exportações industriais para este país, concentradas em bens como telefones celulares e setor automotivo. Aqui, o comércio intrafirma é predominante e propicia um superávit comercial expressivo para o Brasil. Aliás, este é um dos fatores que explicam a manutenção do atual saldo comercial positivo: no primeiro semestre, as exportações para os EUA se ampliaram 44%, contra uma expansão média de 24% das vendas externas brasileiras, em relação ao mesmo período de 2004.

No caso chinês, ao contrário, o nosso saldo comercial do primeiro semestre representa apenas 30% do obtido em 2004, o que revela uma relação comercial menos favorável em termos estruturais, já que aqui o comércio intrafirma é pouco expressivo e os termos de intercâmbio tendem a ser mais desfavoráveis ao Brasil. Mas, ao contrário da China, o Brasil tem se mostrado um parceiro em termos de investimento ainda modesto.

Quando se analisa a relação econômica do Brasil com o Mercosul e os países latino-americanos, observa-se um quadro quase oposto ao apontado para a UE e os países asiáticos: concentração de exportações de produtos de maior valor agregado, com a geração de saldos positivos crescentes, em parte explicados pelo crescimento da economia brasileira a uma taxa inferior à dos latino-americanos.

O saldo comercial com a vizinha Argentina ampliou-se em 114% entre o primeiro semestre de 2005 e o mesmo período de 2004, montante 3,6 vezes superior ao superávit obtido com a China. O conjunto da América Latina já representa 32% do saldo comercial e 22% das exportações do país no primeiro semestre de 2005. Também aqui o avanço dos investimentos diretos do Brasil ainda é distante de sua projeção comercial.

Este desempenho “dinâmico” do país na região latino-americana reflete, além das vantagens de uma estrutura industrial mais diversificada, o papel crescente que muitas multinacionais têm conferido ao Brasil: o de plataforma de exportações para a América Latina.

Em síntese, o avanço significativo de nossas exportações nos últimos anos não se mostra suficiente para garantir uma posição internacional competitiva e dinâmica ao país. Mas este desafio competitivo global depende da solução de um conjunto de dilemas estruturais internos, agravados por uma política econômica que vê inflação em toda parte e resiste em liberar o potencial desperdiçado de capacidade produtiva, criatividade e força de trabalho existente no país.

Ricardo Sennes é doutor em Relações Internacionais pela USP e diretor da Prospectiva Consultoria Internacional.

Alexandre de Freitas Barbosa é doutor em economia aplicada pela Unicamp e diretor de análise econômica da Prospectiva Consultoria Internacional.

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