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Livro alertou sobre mazela do varejo que derrubou Americanas, Marisa e Tok&Stok

Em o “O Oráculo do Empreendedor”, publicado em novembro de 2022, faço a seguinte advertência: “cuidado com o varejo”.

Entre vários exemplos, trago o caso da Arapuã, que tinha o título de maior varejista de eletroeletrônicos do país e ações negociadas até na Bolsa de Nova York, mas que foi à lona com uma dívida bilionária junto aos fornecedores.

Em entrevista à Revista Época, em 2010, o filho do fundador, Renato Jacob, admitiu que “foi um erro entrar na guerra de vendas e prazos ao consumidor”.

Sabe por que foi um erro?

Porque a Arapuã não tinha caixa para tanto, sobretudo, para segurar seu crediário próprio ao consumidor e comprar o volume que vendia. Ou seja, operava altamente alavancada em dívidas, que foram se acumulando por anos até ficarem insustentáveis.

Um caixa insuficiente provoca distorções complexas na administração de uma varejista que entra em guerra por mais vendas. Observe a seguinte constatação feita no livro:

“O fato é que vender mais obriga a empresa a comprar mais; assim, se o referido ciclo (tempo entre a compra e permanência em estoque até a venda e os respectivos recebimentos) for maior que o prazo concedido pelo fornecedor para pagamento, o caixa precisará arcar com a despesa sem ainda ter recebido do cliente. Nesse ciclo, quanto mais as vendas crescem, mais e mais caixa é necessário para tapar o “buraco” (pagar o fornecedor até completar o ciclo e receber do cliente) e “financiar” essas vendas, independente do lucro que está sendo gerado. E a conta é exatamente essa; não tem para onde fugir. Assim, muitas empresas lucrativas acabam recorrendo a fontes emergenciais, caras e insustentáveis de capital de giro, a fim de tapar esses buracos do caixa; contudo, isso cria uma bola de neve de dívidas que superam sua capacidade de pagamento, o que não raro leva as empresas a quebrarem.”

Ora, não foi justamente o que ocorreu com Americanas, Lojas Marisa e Tok&Stok?

A Americanas foi tão longe em financiar suas vendas com dívidas, ao alongar o prazo junto aos fornecedores com bancos, em uma das operações mais caras do mercado, chamada de “risco sacado”, que fez o absurdo de abater os juros pagos aos bancos do passivo com os fornecedores.

Assim, majorava seu lucro pelo não lançamento da despesa financeira e ainda reduzia artificialmente suas dívidas com fornecedores, distribuindo gordos dividendos.

Só em 2022, foram mais de 300 milhões de reais distribuídos até setembro. Resultado: um rombo de mais de 20 bilhões de reais. Uma verdadeira tragédia, ou melhor, uma fraude criminosa.

Esse caso da Americanas reflete bem uma mazela para a qual chamei atenção no referido livro: falta de prioridade com o fluxo de caixa. O fato é que não há balanço nesse mundo que seja mais importante do que o fluxo de caixa, conforme nos ensina Jack Welch: “fluxo de caixa é o pulso, o sinal vital mais importante da empresa”. Alfred Rappaport, da Universidade Northwestern, vai além: “dinheiro é fato, lucro é opinião”.

Para exemplificar melhor a tese de Rappaport e Welch, trago também a história do professor Bill Lazier, que apresentou um determinado caso aos alunos do curso de Administração de Pequenas Empresas, da Stanford Graduate School of Business, e por fim perguntou: “qual é a principal questão neste caso?”.

Na sequência, obteve respostas mirabolantes de estratégia e outras lindamente pensadas. Até que um abençoado mandou: “acho que o grande problema é que eles não vão conseguir pagar os funcionários na semana que vem. A empresa está prestes a ficar sem caixa”.

Então, disse Lazier: “Nunca esqueça: você paga suas contas com caixa. Você pode ser lucrativo e estar falido”.

Sabe por que ninguém no mercado conseguiu identificar a fraude da Americanas desde o início?

Porque todos estão preocupados só com o balanço e não ligam para o fluxo de caixa. Se ligassem, mesmo a Americanas omitindo a dívida financeira do balanço, análises do fluxo de caixa revelariam a fraude desde o início, pela óbvia distorção em relação ao lançado no balanço, pois os pagamentos dos juros aos bancos vinham ocorrendo normalmente até o fim de 2022.

Não à toa, fiz questão de que “Caixa” fosse o primeiro capítulo de “O Oráculo do Empreendedor”, onde faço diversos alertas em relação às mazelas nos caixas das empresas, sobretudo, no varejo, a saber:

“Cuidado com o varejo. O varejo é muito competitivo, possui altos custos operacionais, trabalha com margens apertadíssimas, é o primeiro a sofrer com as crises e precisa de um caixa parrudo”.

Os alertas estão em várias passagens do livro. Agora Americanas, Marisa e Tok&Stok estão sem caixa até para pagar o aluguel das lojas e já anunciaram o calote, o que é outro absurdo e algo irreversível para a imagem dessas empresas.

Definitivamente, isso poderia ter sido evitado, se houvesse a devida prioridade que o caixa exige para operar no varejo, sobretudo, para ganhar na compra, mitigar riscos e reduzir despesas financeiras com juros altos para financiar as vendas.

Adelson Júnior é empreendedor há mais de 20 anos e atuou como consultor em dezenas de negócios. Este artigo é uma adaptação de um trecho do livro “O Oráculo do Empreendedor”. Saiba mais clicando aqui.

Fonte: https://administradores.com.br

Eijy Goto