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MEU AMIGO COLOU NA ESCOLA

por Conrado Adolpho – 

Era um daqueles dias infernais no trabalho. Nada dava certo. Na esperança de que alguma idéia luminosa me salvasse de uma hora extra em plena quinta-feira, fui passear um pouco pela empresa. O passeio, é claro, se resumia a ir da minha minúscula baia até a máquina de café. Lá, dois de meus vizinhos de baia conversavam:

– “Ai, eu fiz uma cola bem pequenininha e levei para a prova, só passei por causa disso”
– “Eu acho que a cola é saudável. Quando você escreve as palavras-chave na cola, você acaba aprendendo a matéria e às vezes nem precisa usá-la”. Corroborou o amigo.
– “Falou e disse.” Sacudindo a cabeça como que numa confirmação do verdadeiro papel educativo da cola.

Nós três tínhamos recém saído da faculdade e naquela hora me senti como um terceiro excluído. Eu não colei nas provas, eu não fumei um baseado e nem me passava pela cabeça pichar o muro da escola. Algumas vezes já havia me sentido como naquela hora, um forasteiro.

Será que eu tivera uma adolescência normal?

Na faculdade, e antes, na escola, parecia que todos passavam de ano colando e depois das provas iam para o que chamavam de “discoporto” para “fumar um”. Durante alguns anos, minha cabeça adolescente dividia-se entre achar tudo isso um grande barato e uma enorme besteira.

Não é porque todo mundo faz uma grande bobagem que deixa de ser uma grande bobagem.

Sempre considerei a cola algo desonesto, talvez eles também a considerassem, mas muitos fumantes sabem que cigarro faz mal. O pequeno delito da cola, porém, passa aos olhos do mundo como algo normal e até louvável, símbolo de astúcia e objeto de celebração por parte dos amigos, por mais dantesco que isso possa parecer .

Durante as aulas de filosofia, na faculdade, refletia sobre os limites da moral e da ética. “Será que pessoas que consideram a cola algo normal, e a praticam indistintamente, cometeriam outros pequenos delitos com menos escrúpulos?” – me perguntava, talvez para provar para mim mesmo que eu estava certo no meu comportamento meio “caretão”.

Não considerava os meus amigos que colavam inteiramente desonestos, contudo, eles estavam longe de serem exemplos de retidão.

Muitos querem ser James Dean, muitos querem um off-road, um Land Rover, para rodar no asfalto. A santíssima trindade sexo, drogas e rock and roll encarnou durante anos o ousado que reside em nossas mentes, na maior parte do tempo contido ou adormecido.

O espírito libertário, que coexiste com a tranqüilidade caseira em cada um de nós, porém, se revela de diversas formas em nosso inconsciente. Muitos não podem sair por ai cantando “Born To Be Wild” ou, na versão mais moderna, escrevendo o diário de uma motocicleta. Na tentativa de mostrar para os outros, e para si mesmos, que são mais poderosos que todas aquelas regras ridículas que lhes foram impostas desde crianças, esgueiram-se pelas frestas do sistema cometendo pequenas fraudes.

Eu mesmo já me peguei em pequenos delitos para provar a mim mesmo alguma coisa que já me esqueci, ninguém os viu, mas eu vi. Foi o suficiente para refletir bastante sobre eles.

Todos entramos de vez em quando em um embate contra os princípios que consideramos corretos. Vez por outra precisamos nos sentir seguros e aumentar nossa autoconfiança, mesmo que para isso tenhamos que violar algumas regras.

A diferença entre os indivíduos está basicamente nas regras que são escolhidas para serem violadas.

Steppenwolf, Rage Against the Machine e Doors passam sempre pelo meu cd-player no último volume (e, diga-se de passagem, adoraria que fosse num Land Rover), mas Chico Buarque e Nara Leão também fazem parte do meu repertório.

Entrei na conversa.

– “E ai? Estão descansando um pouco?”
– “Cara, eu não agüento mais trabalhar, daria tudo para estar em casa” falou um deles com claros sinais de uma insatisfação absoluta pelo seu emprego que conseguira, após dezenas de dinâmicas de grupo e semanas de angústia.
– “Já são três da tarde. Daqui a pouco termina” Falei na tentativa de animar meus companheiros e tornar seus sofridos dias mais amenos.
– “Nem me fale. Amanhã não venho. Vou levar minha avó ao médico”
– “Ei. Sua avó já não morreu?” Lembrou o amigo.
– “Morreu sim, mas essa é a versão oficial. Vou a uma festa que não posso perder por nada nesse mundo”

Abri um meio sorriso, despedi-me e voltei para a minha baia.

Conrado Adolpho (www.conrado.com.br) é educador, empresário, estrategista e palestrante. Sua formação vem de escolas de excelência como ITA e Unicamp. Há mais de 10 anos vem preparando profissionais dos mais diversos ramos de atividade em suas aulas, palestras e treinamentos. Suas áreas de atuação são: marketing, vendas, atendimento, marketing educacional, marketing pessoal e desenvolvimento pessoal.


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