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por Marcos Hashimoto

Era uma vez três amigos que resolveram se juntar para montar um novo negócio. A idéia foi de Cícero, o mais criativo dos três, que concebeu uma idéia fantástica de negócio baseado na prestação de serviços para a construção de casas residenciais com alto grau de segurança integrada, a Construtora Suíno.

Como era natural, Cícero foi eleito o líder do grupo e com o início do negócio, todos se entusiasmavam com suas idéias, inovadoras, sempre usando as mais modernas tecnologias. Cícero conseguia inspirar as pessoas e mostrar como o futuro da empresa seria brilhante e próspero. O problema é que o tempo ia passando e as pessoas começavam a se cansar de suas idéias mirabolantes. Dava a impressão que ele não conseguia fazer as coisas acontecerem, porque mal começava algo, ele logo perdia o interesse e desviava sua atenção para uma oportunidade nova que surgia. O tempo todo os funcionários sentiam que a empresa ia para um caminho diferente, começava algo e não terminava para logo tomar outro caminho totalmente distinto.

Cícero não se deixava abater, perdido em seus devaneios, justificava a falta de ação com a descrição de cenários futurísticos onde sua empresa chegará se todos se empenharem. Ao ser questionado pelos seus sócios sobre sua capacidade de gestão, ele retrucava dizendo que precisava pensar em coisas mais importantes do que estes problemas mundanos do dia-a-dia.

Um dos sócios, Prático, inconformado com tal postura, logo se colocou à frente do negócio, com o irrestrito apoio dos funcionários e do outro sócio, Heitor. Como o próprio nome diz, Prático não era de ficar elocubrando sobre possibilidades, era focado em resultados. Os funcionários sentiram sua força e ficaram animados com a capacidade de colocar idéias em ação. Prático não perdia tempo para nada, extremamente dinâmico e cheio de energia, ele colocava todo mundo em ação e se incomodava se algo o interrompia.

A cada novo cliente, Prático já assumia a tarefa de entregar a casa pronta, coletava tijolos, limpava o terreno, assentava o piso, providenciava todas as instalações elétricas e hidráulicas, implementava os equipamentos de segurança. Tudo em tempo recorde. Todos estavam felicíssimos com a nova gestão. É verdade que surgiam alguns problemas, mas Prático resolvia tudo com rapidez, o importante é que as coisas aconteciam.

Com o tempo, os problemas nas construções começaram a ficar mais freqüentes. Falta de material, funcionários com pouco treinamento, acabamento mal feito. Os prazos já não eram atendidos com a mesma rapidez, pois se perdia muito tempo refazendo o que tinha sido feito com pressa. Para piorar, as primeiras casas entregues na gestão do Prático começaram a dar problemas de infiltração, vazamentos, azulejos soltos, entre outros. Prático não se importava muito com o retrabalho, pois continuava a acreditar que o importante era entregar algo, e logo.

Heitor começou a dar suas sugestões. Afirmava que era melhor fazer uma lista de materiais antes de começar a obra, preferia verificar a qualificação da mão-de-obra antes de envolve-los na construção. Defendia a tese que tudo sairia mais rápido e com menos erros se houvesse o mínimo de planejamento antes. Prático desdenhava dos conselhos de Heitor, mas com o tempo se viu forçado a dar vazão às suas idéias em função dos resultados alcançados.

Logo, Heitor começou a assumir os projetos pois ganhava cada vez mais projeção dentro da empresa. Na mesma medida, Prático foi sendo deixado á berlinda, junto com Cícero. Com o poder nas mãos, Heitor pôde dar vazão a todas as suas teorias sobre otimização do trabalho e gerenciamento de projetos que havia aprendido na faculdade, com seus orçamentos, controles, planos de ação, cronogramas detalhados, planos de contingência, planilhas de todos os tipos, ferramentas para decisões gerenciais, etc. Heitor trouxe um senso de segurança e ordem que a empresa nunca havia experimentado antes. A motivação novamente tomou conta da empresa que sentiu como uma gestão profissional é realmente valiosa para as empresas.

Não demorou muito para que Heitor acabasse se deixando levar pelo entusiasmo com o exagero na instituição de regras e controles. Tudo tinha que passar pela sua aprovação. Nada era feito sem sua assinatura, cada obra tinha que ter o planejamento estrutural, o plano de alocação de recursos, o plano hidráulico, o plano elétrico, o mapa de fluxo operacional, o plano de ocupação de espaços vazios, o relatório de impacto ambiental, o certificado de composição do terreno, entre várias outras coisas. Uma obra levava, entre a sua contratação e o início das operações de 9 a 15 meses. Heitor não abria mão de nada para reduzir este tempo. Alegava que o segredo do sucesso da empresa repousava no seu acurado e minucioso planejamento.

Os clientes não viam da mesma maneira, acabaram se cansando de tanta burocracia, de tantos problemas e de tantas idéias sem fundamento. Foram deixando a Suíno aos poucos para tentar novamente com o principal concorrente deles, uma empresa nova chamada Lobo & Cia, que foi, desta forma, prosperando, crescendo e ganhando mercado. Não demorou muito para que eles incorporassem a pequena e deficitária Suíno. Aparentemente a Lobo & Cia teve mais fôlego e paciência para esperar pela autofagia da Suíno.

E quanto aos jovens empreendedores? Depois de vender o negócio, resolveram tentar a sorte como roteiristas de histórias infantis. Parece que estão se dando bem.

Marcos Hashimoto
Doutorando em Administração pela EAESP/FGV, sócio-diretor da Lebre Consulting, Coordenador do Centro de Empreendedorismo do Ibmec São Paulo, foi executivo no Citibank e na Cargill Agrícola. É um dos autores do software de Plano de Negócios SP Plan da parceria Sebrae-SP/Fiesp, parceiro do Instituto Chiavenato e Instituto Empreender Endeavor e é autor do livro ‘Espírito Empreendedor nas Organizações’ pela Editora Saraiva.

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